quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Eleições 2010 - Escárnio

Ano importantíssimo de eleições. Presidente, Senador, Deputado Federal, Governador e Deputado Estadual. Uma verdadeira maratona.

Tenho 37 anos e minha geração é privilegiada nesse sentido, meu pai por exemplo aos 36, votou para presidente pela primeira vez, eu com um ano a mais estou indo pra sexta votação presidencial.

Meus pais foram impedidos de votar por quase 30 anos devido ao regime militar. E muito mais nocivo que os anos de repressão desse período, é o efeito colateral que isso causou. Minha geração não aprendeu com os pais o dever cívico de votar porque eles não sabiam nem ensinar e conseqüentemente nós não vamos passar esta lição como deveríamos para a próxima geração, porque também ainda não aprendemos.

Não estou falando isso em causa própria, leio jornal desde os 12 anos e meu pai era viciado em política e me ensinou muito e minha mãe é totalmente ligada no assunto até hoje, estou falando isso no geral. É raro encontrar pessoas com menos de cinqüenta anos que saiba descrever as obrigações de cada cargo eletivo desses da próxima eleição.

O exercício da democracia demora alguns anos para ser compreendida e passar a funcionar como deve, nós no Brasil ainda estamos nessa fase, de maturação do regime democrático. Um bom exemplo disso foi a aprovação do projeto que agora é Lei do “Ficha Limpa”, uma medida óbvia que demorou mais de vinte anos depois de vivermos democraticamente pra ser exigida, coisa que deveria fazer parte já da constituinte de 1988.

A ignorância é total, o eleitor vota sem saber o que exatamente o eleito vai fazer, alguns eleitos inclusive, nem sabem quais são suas obrigações quando se candidatam. (alguém acha que a Mulher Pêra candidata a Deputada Federal por São Paulo sabe todas as obrigações de um deputado? e o Tiririca que tem um slogan assim: Sabe o que faz um deputado? Não? Nem eu, mas vota em mim que eu te conto... E outra: Pior que tá não fica, vote Tiririca - Só matando quem vota nele...) Quem pensa assim vota em qualquer um, dias depois ele já esqueceu em quem votou e por isso não acompanha e não cobra resultados. E os eleitos sem a pressão de dar satisfações a quem os elegeu passa a agir sem compromisso do coletivo e só age em causa própria.

Esse ciclo vicioso de falta de comprometimento cada vez mais passa para a população que os políticos são todos ruins, e cada vez mais as pessoas sentem asco de votar e o país está cada vez mais perdido na mão de incompetentes mal escolhidos e mal fiscalizados, junte-se a isso a impunidade, fruto da legislação arcaica e confusa e a morosidade da nossa justiça, vivemos esse caos que acompanhamos diariamente nos noticiários.

O mal político já é até um padrão, tudo mundo critica, mas eleitor ruim é muito mais comum e numeroso, mas ninguém fala, o Pelé um dia caiu na besteira de dizer que brasileiro não sabe votar e só não apanhou na rua por ser o Pelé e enquanto isso o Frank Aguiar e Agnaldo Timóteo se elegeram...

Outro problema grave que se instalou no nosso regime democrático é a eleição em regime de segundo turno para os cargos do executivo. Prefeito, Governador e Presidente. É mais um caso de efeito colateral. Essa idéia foi implantada pra evitar que alguém seja eleito por acaso, por exemplo, temos nove candidatos a presidência, imaginem uma eleição equilibrada, em que o primeiro colocado teria 15% dos votos válidos e os outros 85% divididos entre os outros oito. Teríamos um presidente eleito com índice baixíssimo de votos. Com o sistema de segundo turno, os dois primeiros disputam a totalidade, o vencedor obrigatoriamente tem 50% mais um, sendo eleito sempre pela maioria absoluta dos votos válidos. Mas qual é o efeito colateral? Como todos sabem que pode ter segundo turno, os eleitores focam as atenções nos dois melhores colocados nas pesquisas e o resto servem apenas de figurantes. Uns só para aparecer como Levi Fidelix e Eymael, são candidatos em todas as eleições e tiram proveito indireto.

Outros, que se candidatam aos grandes cargos, ficam conhecidos e depois se elegem para deputado federal ou estadual aproveitando-se da popularidade e alguns, com um pouco mais de representatividade como Plínio e Marina nesse ano, usam seus votos como moeda de troca pra apoiar “A” ou “B” no segundo turno e em caso de vitória negociam umas cadeiras nos ministérios ou secretarias públicas.

Tudo isso, nos deixa de mãos amarradas, desde a queda do Collor, temos dois lados PT e PSDB, em situações idênticas. Elegeram presidentes que se reelegeram, governaram o país por dois mandatos seguidos, fizeram bons trabalhos, mas muito longe de serem considerados ideais, sem contar que ambos foram marcados por diversos casos de corrupções, e indubitavelmente o PT ou o PSDB governará o país por mais 4 anos, não temos saída.

De tantas opções que temos, na verdade, não temos opção nenhuma, nada muda e nada mudará em curto prazo. O brasileiro precisa acordar, aprender os deveres cívicos, exercê-los e passá-los adiante. Saber exigir a lisura de quem governa e mudar o que for necessário para o bem comum e não da meia-dúzia de sempre se alternando no poder no mesmo sistema que se mantém.

E por mais democrático que eu seja e consciente que as opções são mínimas, continuarei achando que votar nulo é converter um direito inalienável de votar em lixo, de delegar poder aos outros para se eximir de culpa na primeira escorregada do eleito da vez, premiar a omissão em detrimento da ação.

Lista das “celebridades” oportunistas: (CUIDADO)

Mulher Pêra DEPUTADA FEDERAL SP
Reginaldo Rossi DEPUTADO ESTADUAL PE
Vampeta DEPUTADO FEDERAL SP
Dinei DEPUTADO ESTADUAL SP
Mulher Melão DEPUTADA ESTADUAL RJ
Batoré DEPUTADO FEDERAL SP
Tiririca DEPUTADO FEDERAL SP
Leandro KLB DEPUTADO ESTADUAL SP
RONALDO ESPER DEPUTADO FEDERAL SP
ROMÁRIO DEPUTADO FEDERAL RJ