Sou viciado em futebol, desde criança despertei um interesse incomum pelo esporte mais popular do planeta, por influência do meu pai, já cresci fanático, por futebol e claro pelo Corinthians. Leio jornais sobre esporte desde que aprendi a ler, todos os dias esperava meu pai chegar do trabalho pra ler um jornal já extinto o saudoso “Popular da Tarde” da franquia Diário Popular, hoje o Diário de São Paulo. Sempre acompanhei as revistas e todos os programas de rádio e TV, principalmente depois dos canais à cabo.
Mas o que o Neto tem a ver com isso? Explico.
Quando o Corinthians anunciou a contratação dele, eu particularmente odiei. As notícias que acompanhava dele em outros times eram sempre por indisciplina, confusão, fugas de concentração, brigas e trocas de clubes, sem contar que tinha duas marcas dele contra o Corinthians que eu estava presente, ambas no Morumbi. O golaço de bicicleta, jogando pelo Guarani em 1988, dia 24 de julho, na final do Paulistão e por coincidência, meu aniversário. Tomei chuva o dia todo e o vi correr em minha direção gritando várias vezes “eu sou foda, eu sou foda, eu sou foda”. Claro que não ouvi na hora, só depois na TV, mas a leitura labial era muito esclarecedora num estádio mudo por alguns instantes. E um gol de cabeça, pelo Palmeiras poucos meses antes de trocar o Parque Antártica pelo São Jorge.
Já tinha torcido muito por ele apenas duas vezes, durante as olimpíadas de Seul em 1988, que o Brasil surpreendentemente perdeu a final para União Soviética e também vibrei muito quando ele marcou um gol no Palmeiras em cima do Zetti, num frango histórico, na derrota para o São Paulo, no seu curto período de tricolor.
Quando ele foi contratado, meu pai adorou e profetizou: “Esse cara é craque, vai ser ídolo no Corinthians”. Duvidei e tripudiei, mas fui na sua estréia no Pacaembu, uma vitória magra de um a zero sobre o Sampaio Correia do Maranhão, gol do Fabinho, outro estreante, pela primeira Copa do Brasil, resultado que garantiu a classificação para segunda fase, uma atuação individual muito discreta.
Ainda nesta Copa, o Neto quebrou minha resistência, num jogo contra o Flamengo que ainda tinha Zico e Júnior (autores de um gol cada) no mesmo Pacaembu, o Neto marcou dois gols, sendo um olímpico, na vitória de quatro a dois. A festa só não foi completa porque esse resultado nos eliminou. A partir dali, o ídolo ganhou mais um fã.
Passei a ir nos jogos com um algo a mais, eu iria ver o Corinthians, mas sabendo que pelo menos do Neto podia esperar o inesperado, um lance mágico, uma falta fatal, um gol impossível, mas acima de tudo, muita vontade, muita raça e muita paixão.
Em 1990, o Corinthians era o Neto e mais dez, esses dez se revezavam e tratavam o camisa 10 como ele deveria ser tratado, esse trabalho de equipe nos levou ao inédito título de campeão brasileiro. O Neto salvou o time por todo campeonato, mas ele decidiu mesmo nas quartas-de-final, contra o Atlético Mineiro, ele marcou os dois gols, da virada, no final do primeiro jogo, consumando a eliminação do melhor time de toda competição e também na semifinal, no gol de falta contra o Bahia, de um goleiro chamado Chico que pegou até pensamento, ambos no Pacaembu, onde o
Neto marcou mais da metade da sua história, essas atuações nos garantiram na finalíssima.
Contra o São Paulo, time do Telê, logo de cara ele cobrou uma falta desviada para o gol , de joelho, pelo Wilson Mano. Vantagem revertida e aumentada na vitória no segundo jogo, desta vez com gol de Tupanzinho, com participação do Neto quando a bola passou pelo meio-campo. O Corinthians era campeão brasileiro e o Neto, eternamente ídolo da fiel.
Essa minha verdadeira devoção por ele, se deve muito mais a atuações fantásticas dele em jogos e vitórias esporádicas do que à títulos e muito também a suas atitudes dentro e fora de campo, sem contar que na sua contratação, eu tinha 16 anos, fase onde fixamos nossos ídolos. Vivi toda a fase do Neto no Timão, o vi no ápice (de 89 a 91) e também no final (97), estava no estádio no dia da cusparada no José Aparecido e no dia que marcou seu primeiro gol contra o Tiradentes de Brasília e também ultimo gol contra o Goiás, acompanhei suas contusões nos tornozelos e todos seus regimes, até quando se propôs a correr a São Silvestre, para poder provar que tinha condições de voltar a jogar, mas independente do que podia render, ele sempre deu o máximo, mesmo que fosse para bater um mísero escanteio.
Não quero me alongar, poderia escrever dias sobre ele, mas não posso deixar de mencionar alguns gols, como seu gol no Maracanã contra o Flamengo, quase do meio do campo, seu gol num empate heróico contra o São Paulo, no final do jogo, com muita chuva, no canto esquerdo do Zetti, nos salvando da derrota. E também o gol mais bonito dele na minha opinião. Esse gol tem história.
Era uma dia de semana, não sei se uma quarta ou quinta-feira, teve greve de ônibus em São Paulo, o ano era 1991. Eu trabalhava no Banco Bandeirantes, já extinto, e o Banco, pagava taxi para os funcionários que moravam longe do metrô chegassem a uma estação, mas eu morava muito longe, então meu chefe me liberou e não fui trabalhar, justo no dia que o Corinthians jogaria numa tarde de dia útil. Mas se não tinha ônibus para trabalhar, não tinha pra ir ao jogo, eu era moleque, tinha 17 anos, decidi então ir ao jogo de bicicleta. Era uma caloi cruizer, sem cambio, vermelha, pesadíssima e a distancia uns 25 km. Levei a corrente e o cadeado do portão da minha casa, escondido dos meus pais e fui pro jogo, demorei duas horas pra chegar. Prendi a “magrela” num poste na praça Charles Miller e entrei. O jogo era contra o Cruzeiro, que tinha um goleiro chamado Paulo Cesar, freguês de caderneta do Neto, não lembro um jogo sequer que o Neto não tenha feito gol nele. Neste dia, estava dois a um para o Corinthians, dois gols dele, no final do segundo tempo, o Cruzeiro perde a bola no campo de ataque, passam a bola pro Neto e ele sai em disparada, cruza o meio campo com a bola dominada, atravessa o campo, ganha do zagueiro e toca na saída do Paulo Cesar, um golaço. Voltei meus 25 km de alma lavada, não só a alma, caiu aquela tempestade de final de tarde, mas era só alegria. Nunca esquecerei esse gol marcado do lado dos portões principais do Pacaembu.
Claro que não mencionei todos os gols que vi no estádio e na TV, ainda me lembrarei de muitos deles, e os que eu achar imprescindíveis os registrarei aqui posteriormente.
Uma coisa eu sei, ter ídolos é um perigo, toda sua devoção pode voltar na sua testa quando este cometer um erro ou uma traição, principalmente no futebol, mas com o Neto nunca me decepcionei, ele hoje como comentarista, fala muita bobagem, mas fala muita coisa boa também, o acompanho como na época que jogava, seja na Transamérica, Bandeirantes, Band Sports ou no blog da UOL. Já estive três vezes na Rádio Transamérica, todas as vezes ele me recebeu muito bem, não só a mim como a qualquer pessoa que o procura. Ele é exatamente o mesmo cara que víamos no campo ou o vemos na TV. Ele é um ídolo na acepção da palavra. Um dos poucos que ainda mantenho. Não é a toa que ele está em todas as listas dos maiores jogadores da história do Corinthians. É mesmo o eterno Xodó da Fiel.
Até !!!



