quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Cinema Nacional em Tempos de Paz e Qualidade

Fico muito feliz cada vez que assisto um bom filme nacional. Sou do tempo da pornochanchada, umas porcarias cinematográficas que desperdiçaram por anos e anos o talento de atores hoje consagrados, onde se privilegiava sexo, nudez e palavrão. Esses filmes criaram em nós a sugestão que filme brasileiro não presta.

A história ou o roteiro pouco importava. Eles não ligavam nem para os títulos, vi um esses dias na TV à cabo de nome “Rebuceteio”, é mole? E estou falando de diretores de renome, Arnaldo Jabor, Plínio Marcos e Glauber Rocha.

Vi recentemente uma entrevista do Pedro Paulo Rangel e ele cita uma frase da Maria Padilha: “Canal Brasil, quem deve, teme.” Tão constrangedor que é para essas atrizes rever suas atuações medíocres, e pior, seus netos, filhos e fãs as verem em indecorosas posições. O Canal Brasil é da TV à cabo, da Globosat, que exibe esses filmes regularmente.

Lembro que tinha uma sessão de filmes, exibidos na TV Record, canal 7 em São Paulo, que passava esses filmes, às sextas-feiras, 22:00 horas. Para os da minha idade, a famosa “Sala Especial”. Nossos pais faziam o possível para que não assistíssemos, mas para um pré-adolescente em ebulição hormonal era o máximo, e pra isso, muito útil.

O tempo passou, a ditadura acabou, os censores sumiram, leis de incentivo foram aprovadas e com muito custo, o cinema brasileiro conseguiu se reestruturar, se tornar confiável e até nos impressionar pela qualidade.


Na semana passada assisti “Tempos de Paz”, filme de Daniel Filho, com base na peça de Bosco Brasil que também é roteirista do filme e com atuação magistral de Dan Stulbach e Tony Ramos. Simplesmente emocionante. A mistura exata de drama e comédia.

O ponto alto do filme é um monólogo onde o personagem do Dan Stulbach é desafiado a fazer o chefe da alfândega do Rio de Janeiro, um cruel ex-torturador da polícia política do Getúlio Vargas, (Tony Ramos) a chorar. Ele começa a contar a história de um antigo professor de latim que falava 17 idiomas e que morre à míngua graças a crueldade incomparável dos nazistas, fazendo uma belíssima analogia entre os homens, racionais e providos de uma ignorância hedionda e os animais irracionais tão mais sensíveis e incapazes de mazelas tipicamente humanas.

O filme é na verdade uma peça teatral no cinema, que se passa praticamente em todo o tempo num único cenário, um galpão da alfândega carioca. Mas o texto nos prende do inicio ao fim. No monólogo que cito acima, percebi em um determinado momento que estava sem respirar, tal a concentração para não perder nenhuma palavra do que o Dan dizia, realmente um primor.

Tenho o péssimo hábito de não ter me habituado a freqüentar teatros, fui pouquíssimas vezes. Primeiro por falta de grana, era caro, mas com o tempo o preço ficou acessível e mesmo assim sempre preferi bares, cinema e futebol como entretenimento, e depois de ver este filme que é baseado numa peça, percebo o quanto perdi.

Deixo aqui meus sinceros cumprimentos aos atores Dan, que sou fã desde que soube que ele era corinthiano e por ser tão bom quanto é, Tony Ramos que dispensa apresentações, ao diretor Daniel Filho que fez um excelente trabalho e principalmente para o autor Bosco Brasil, uma história sensacional.


Um abraço a todos.


Até !!!

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